A nova sobretaxa anual sobre o imposto municipal, a ser implementada a partir de 2028, pode inviabilizar a moradia de membros do clero em suas paróquias, impactando diretamente o trabalho comunitário e o acesso à educação e manutenção de templos históricos no Reino Unido.
O Bispo de Manchester, David Walker, manifestou severa preocupação com a introdução de uma nova sobretaxa anual sobre o imposto municipal (council tax), popularmente referida como “imposto sobre mansões”, que entrará em vigor a partir de abril de 2028. Segundo o líder anglicano, esta medida fiscal pode tornar insustentáveis as moradias de muitos vigários, especialmente em paróquias situadas em regiões socialmente vulneráveis, mas que possuem propriedades de alto valor de mercado, levantando o risco de desalojamento do clero e a consequente desconexão com as comunidades que servem.
A política fiscal em questão prevê que imóveis avaliados em mais de dois milhões de libras serão sujeitos a uma sobretaxa anual sobre o imposto municipal, que pode variar de 2.500 a 7.500 libras. Conforme alertou o bispo em declarações ao jornal The Telegraph, esta carga financeira adicional pode ser excessiva para muitas vicaragens, que, embora sirvam comunidades de baixa renda, estão localizadas em áreas onde o valor dos imóveis é significativamente alto.
O Bispo Walker exemplificou a situação com o leste de Londres, onde congregações majoritariamente compostas por trabalhadores com rendimentos modestos teriam dificuldade em arcar com tal custo. Ele sublinhou a ironia de que, muitas vezes, a residência do vigário é o único local disponível para reuniões comunitárias na paróquia. “Não há como as pessoas em uma paróquia do East End pagarem este imposto sobre mansões, além de tudo o mais que já estão pagando”, declarou, enfatizando a inviabilidade da medida para essas comunidades.
Uma das preocupações centrais reside na legislação eclesiástica, que estipula a residência do clero dentro dos limites da sua paróquia. Essa regra visa fomentar uma profunda conexão comunitária, permitindo que os vigários conheçam a realidade de seus paroquianos no dia a dia. Embora existam raras exceções para que um vigário possa residir fora da paróquia com permissão episcopal, o Bispo Walker salientou que essa prática não é encorajada, pois o deslocamento diário de subúrbios distantes comprometeria a essência da presença pastoral e o conhecimento íntimo da comunidade.
Diante deste cenário, o Bispo David Walker apelou veementemente ao governo para que conceda isenção da nova sobretaxa aos vigários, reconhecendo a especificidade de suas moradias como ferramentas essenciais para o trabalho pastoral e comunitário, e não como luxos pessoais.
A controvérsia sobre o “imposto sobre mansões” insere-se num contexto mais amplo de políticas fiscais do Partido Trabalhista que, segundo críticos, têm gerado desafios adicionais para instituições cristãs. Anteriormente, a imposição do Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA) sobre as propinas de escolas privadas resultou no encerramento de cerca de 50 estabelecimentos, muitos deles de caráter cristão. Esta medida é vista como um obstáculo ao acesso de famílias de baixa renda a uma educação privada e com base em valores cristãos a custos mais acessíveis.
Adicionalmente, o governo também está a considerar o fim de um esquema, já reduzido, que isentava igrejas históricas do pagamento de IVA sobre obras de reparação. Essa decisão poderia colocar em risco a manutenção e a existência de até 260 locais de culto anglicanos, evidenciando uma pressão fiscal crescente sobre as instituições religiosas e o património cultural associado.