Uma recente controvérsia envolvendo a English Heritage, uma renomada instituição de caridade responsável pela gestão de mais de 400 sítios e edifícios históricos na Inglaterra, trouxe à tona um importante debate sobre a precisão histórica da origem do Natal. A organização admitiu publicamente ter divulgado informações incorretas em suas plataformas digitais, alegando que a celebração natalina em 25 de dezembro derivava de um festival pagão romano em homenagem ao deus sol, Sol Invictus. Este equívoco, juntamente com uma data imprecisa para a conversão do Império Romano ao cristianismo, gerou discussões entre historiadores e o público, ressaltando a relevância de uma curadoria meticulosa de fatos, especialmente por entidades que têm como missão a preservação e a divulgação da memória nacional. A retração da English Heritage sublinha a constante necessidade de rigor na apresentação de dados históricos, em um cenário onde a desinformação pode facilmente se propagar.
A Controvérsia Histórica e a Retratação da English Heritage
As Alegações Incorretas da Instituição e o Esclarecimento Necessário
A English Heritage, através de suas publicações na plataforma X (antigo Twitter), havia postulado que a data de 25 de dezembro para o Natal possuía raízes pagãs. Em uma de suas postagens, a instituição afirmou: “Por que comemoramos o Natal em 25 de dezembro? Era celebrado pelos romanos como o nascimento do deus sol, Sol Invictus. Depois que o Império Romano se converteu ao cristianismo, tornou-se um feriado cristão e partes das festividades de inverno foram unificadas.” Esta declaração, que conecta diretamente o Natal à divindade pagã Sol Invictus, foi rapidamente contestada por historiadores e estudiosos da antiguidade. A instituição também cometeu um segundo erro factual ao afirmar que o cristianismo “se tornou a religião oficial do Império Romano em 325 d.C.”, quando, na realidade, este marco ocorreu décadas depois.
A imprecisão dessas informações não passou despercebida. Após a repercussão negativa e os alertas de especialistas, a English Heritage agiu prontamente. Ambas as publicações contendo os dados incorretos foram removidas da plataforma X. Um porta-voz da instituição, em declaração subsequente, reconheceu abertamente o equívoco: “Percebemos rapidamente que tínhamos cometido um erro e apagamos as publicações”, demonstrando um compromisso com a correção da narrativa histórica. Este incidente realça a vigilância constante que é necessária na divulgação de conteúdos históricos, principalmente em ambientes digitais onde a velocidade de disseminação é altíssima e a verificação dos fatos se torna uma etapa crucial.
As Verdadeiras Raízes da Celebração Natalina e os Fatos Históricos
A Data de Nascimento de Cristo na Perspectiva Cristã Primitiva
Contrariamente às alegações inicialmente divulgadas pela English Heritage, a escolha de 25 de dezembro para celebrar o nascimento de Jesus Cristo possui fundamentos distintos na tradição cristã. Embora a Bíblia não especifique uma data exata para o nascimento de Cristo, a crença de que Jesus foi concebido em 25 de março era amplamente difundida entre os primeiros cristãos. Consequentemente, ao somar nove meses a essa data, chega-se a 25 de dezembro como a data provável de seu nascimento. Esta concepção remonta a um período bastante antigo, com evidências que datam pelo menos do ano 204 d.C., e é atestada em obras de figuras influentes como Hipólito de Roma, um dos mais importantes teólogos e escritores cristãos da época. A adoção dessa data, portanto, precede em muito qualquer tentativa de sincretismo com festividades pagãs posteriores, firmando-se como uma tradição interna do cristianismo primitivo.
Desmistificando a Ligação com Sol Invictus e a Real Conversão do Império
A ligação entre o Natal e o culto ao Sol Invictus, embora popular em algumas narrativas, carece de suporte cronológico robusto. A evidência mais antiga que sugere a celebração do festival de Sol Invictus em 25 de dezembro data do final do século III. Este período é significativamente posterior ao momento em que os cristãos já haviam começado a comemorar o nascimento de Cristo nessa mesma data. Ou seja, a prática cristã de celebrar o Natal em 25 de dezembro estabeleceu-se quase um século antes de haver qualquer registro substancial de uma celebração pagã ao Sol Invictus no mesmo dia. Isso enfraquece consideravelmente a teoria de que o Natal cristão foi simplesmente uma apropriação direta de um festival pagão preexistente, sugerindo que as datas podem ter convergido por razões distintas ou que a celebração cristã se firmou independentemente.
Adicionalmente, a English Heritage também errou a data da oficialização do cristianismo como religião do Império Romano. A instituição citou 325 d.C., um ano notável pelo Concílio de Niceia, mas que não marcou a oficialização. Na verdade, foi em 380 d.C. que o Imperador Teodósio I, através do Édito de Tessalônica, declarou o cristianismo niceno como a religião estatal do Império Romano. Esta correção temporal é crucial para entender a cronologia da relação entre a Igreja e o Estado romano e como o cristianismo se consolidou como força dominante na Europa Antiga e Medieval, moldando profundamente a cultura e a identidade do continente.
Repercussão e a Importância da Preservação da Memória Histórica
As imprecisões divulgadas pela English Heritage provocaram uma onda de reações no meio acadêmico e entre o público interessado em história. Historiadores de renome, como Tom Holland, autor do aclamado livro “Dominion”, recorreram às redes sociais para desmentir as alegações da instituição, com Holland expressando seu descontentamento de forma concisa: “Por favor, façam isso parar”. A facilidade com que tais informações incorretas podem se espalhar em plataformas digitais realça o desafio enfrentado por instituições culturais na era da informação, onde a checagem de fatos se torna uma prioridade inadiável para manter a credibilidade e educar o público de forma precisa.
Além da correção factual, o incidente levantou questões mais profundas sobre a função e a responsabilidade de instituições como a English Heritage. O escritor católico Gavin Ashenden, ao comentar o episódio, enfatizou que a “função do English Heritage é preservar a memória nacional”. Ashenden argumentou que a memória nacional da Inglaterra é “inteiramente cristã”, destacando que o cristianismo “construiu a cultura que o English Heritage existe para preservar: catedrais, calendários, gramática moral, leis, idioma, costumes, festivais e música”. Essa perspectiva sublinha que a história cristã não é apenas um componente, mas uma força estruturante da identidade cultural inglesa, e que a precisão em sua representação é fundamental para a integridade da memória histórica. A polêmica serve como um lembrete contundente da importância de um rigor acadêmico intransigente por parte de entidades culturais e históricas, garantindo que o legado seja transmitido com fidelidade e clareza para as futuras gerações, evitando a distorção de narrativas que são essenciais para a compreensão de nossa civilização.
Fonte: https://folhagospel.com