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Incidente religioso em Java Ocidental: Muçulmanos barram culto cristão de Natal

O conflito na Indonésia. (Foto: Reprodução/Instagram/Permadi Arya)

Um episódio de alta tensão religiosa marcou a província de Java Ocidental, na Indonésia, em meados de dezembro, quando membros de uma comunidade muçulmana formaram uma barreira humana para impedir que cristãos da Igreja Protestante Huria Kristen Batak (HKBP) celebrassem um culto de Natal. O evento ocorreu no dia 14 de dezembro, na aldeia de Jayasampurna, localizada no subdistrito de Serang Baru, na regência de Bekasi, nos arredores da capital Jacarta. Apesar da presença policial no local, os manifestantes, alguns dos quais não eram residentes da comunidade, bloquearam o acesso dos fiéis ao posto de oração utilizado pela congregação, evidenciando um cenário de crescente intolerância religiosa na região. Este incidente, que não foi isolado, provocou uma série de mediações governamentais, buscando resolver o conflito e garantir o direito à prática religiosa.

Confronto em Jayasampurna: Barreira humana e gritos anticristãos

Detalhes do bloqueio e a persistência dos fiéis

A manhã de 14 de dezembro se transformou em um palco de confronto em Jayasampurna. Dezenas de homens e mulheres muçulmanos, alguns com os braços entrelaçados, formaram uma corrente humana para barrar os cristãos. Testemunhas e vídeos divulgados nas redes sociais capturaram a cena, onde manifestantes proferiam frases anticristãs e entoavam o slogan jihadista “Allahu Akbar” (Deus é o Maior) de forma repetitiva. A ação ocorreu à vista de oficiais da polícia e de moradores que acompanhavam o desenrolar dos acontecimentos, sem que a barreira fosse desfeita a tempo de permitir o culto. Em algumas imagens, fiéis cristãos podem ser vistos sendo empurrados enquanto tentavam, sem sucesso, acessar o local designado para a celebração do Natal, um posto de oração próximo ao complexo habitacional Green Cikarang, onde a congregação da HKBP se reúne há aproximadamente sete anos.

A tensão era palpável, e a frustração dos cristãos era evidente. Em um dos vídeos, um membro da congregação expressou a angústia dos fiéis com um apelo simples, mas carregado de significado: “Só queremos adorar em paz – não temos intenção de perturbar ninguém”. Essa declaração resumiu a essência do desejo da comunidade cristã de exercer sua fé sem impedimentos, em um país que, constitucionalmente, defende a liberdade religiosa. O bloqueio não apenas impediu a realização de um culto específico, mas também gerou um profundo sentimento de vulnerabilidade e injustiça entre os cristãos locais, que se viram privados de um direito fundamental em sua própria comunidade, a despeito da presença das autoridades encarregadas de manter a ordem.

Intervenção governamental e a busca por harmonia inter-religiosa

A cronologia dos bloqueios e as tentativas de conciliação

O bloqueio de 14 de dezembro não foi um incidente isolado, mas sim o ponto culminante de uma série de interrupções que afetaram a comunidade cristã local. De acordo com relatos da imprensa indonésia, a mesma congregação da HKBP já havia sido impedida de realizar seus cultos nos dois domingos anteriores, em 30 de novembro e 7 de dezembro. Essa recorrência de incidentes sublinhou a necessidade urgente de uma intervenção das autoridades para mediar o conflito e garantir a liberdade religiosa dos fiéis. A persistência dos bloqueios levou a uma resposta governamental, buscando estabilizar a situação e promover a harmonia entre as comunidades.

Diante da gravidade e da recorrência dos eventos, autoridades locais agiram prontamente. Já em 15 de dezembro, um dia após o incidente mais recente, foi realizada uma reunião de mediação crucial entre as partes envolvidas no conflito. O encontro, supervisionado pelo prefeito de Bekasi, resultou em um acordo provisório que permitiria à congregação da HKBP realizar seus cultos temporariamente no escritório do Fórum de Harmonia Inter-religiosa, localizado na cidade de Jababeka. Essa medida emergencial visava garantir que os cristãos pudessem continuar praticando sua fé, enquanto uma solução mais duradoura fosse buscada. A flexibilidade demonstrada pelas autoridades na proposição de um local alternativo ressaltou o compromisso em encontrar um caminho para a convivência pacífica, mesmo diante de tensões significativas.

A busca por uma resolução definitiva continuou. Em 18 de dezembro, o Ministério de Assuntos Religiosos da Indonésia interveio com uma nova rodada de mediação. Esta reunião culminou na formalização de oito acordos entre as partes, conforme divulgado pela agência de notícias oficial indonésia Antara. Entre os pontos cruciais acertados, os envolvidos concordaram em perdoar uns aos outros, um passo fundamental para a reconciliação. Além disso, foi pactuada a resolução de todos os trâmites de licenciamento para a construção de locais de oração, um desafio frequentemente enfrentado por minorias religiosas no país. O Ministério de Assuntos Religiosos também se comprometeu a auxiliar a igreja na celebração de suas festividades de Natal, sinalizando um esforço conjunto para superar as divisões e reafirmar o direito de todos à prática religiosa em ambiente de paz e segurança.

A intolerância religiosa e o clamor por proteção dos direitos fundamentais

Os recorrentes episódios de intolerância religiosa em Java Ocidental, culminando no impedimento do culto de Natal, geraram uma onda de críticas e indignação em todo o arquipélago indonésio. Nas plataformas de redes sociais, cidadãos e ativistas expressaram seu descontentamento com a escalada de confrontos religiosos. Um dos mais veementes críticos foi o ativista Permadi Arya, que dirigiu um apelo direto ao governador de Java Ocidental, Dedi Mulyadi. Em sua mensagem, Arya cobrou uma postura ativa do governador, destacando que “esse tipo de intolerância acontece com muita frequência em sua província”. Ele enfatizou ainda que o ano em curso estava se tornando “o pior ano na história da tolerância inter-religiosa na Indonésia”, projetando uma preocupante regressão nas relações comunitárias.

A crítica do ativista foi além do simples protesto, transformando-se em uma clara defesa dos direitos das minorias religiosas. Permadi Arya clamou às autoridades para que não ignorassem a perseguição aos cristãos, reiterando que “eles não são cidadãos de segunda classe”. Ele sublinhou que os cristãos “têm o mesmo direito de praticar sua religião, e o Estado é obrigado a protegê-los e defendê-los”. Essa declaração ressalta o princípio constitucional da Indonésia, que, apesar de ser o país com a maior população muçulmana do mundo, reconhece oficialmente seis religiões e garante a liberdade de culto. No entanto, a realidade no terreno, como evidenciado pelos bloqueios e pela dificuldade em obter licenças para construção de igrejas, muitas vezes diverge do arcabouço legal.

Este contexto de crescente conservadorismo islâmico na sociedade indonésia tem sido uma preocupação crescente para observadores da liberdade religiosa. Nos últimos anos, percebe-se uma inclinação para uma interpretação mais rigorosa do Islã, o que pode exacerbar as tensões com minorias religiosas. Igrejas envolvidas em atividades evangelísticas ou que buscam expandir sua presença podem se tornar alvos de grupos extremistas. Os incidentes em Jayasampurna são um lembrete vívido dos desafios enfrentados pelos cristãos indonésios, que buscam exercer sua fé em um ambiente de crescente pressão social. A eficácia das mediações governamentais e o compromisso em proteger a liberdade de culto serão cruciais para reafirmar o caráter pluralista e tolerante da Indonésia e evitar a erosão dos direitos fundamentais das minorias religiosas no país.

Fonte: https://guiame.com.br

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