A Escalada da Violência e Intimidação
Incitações e Ações Coordenadas
O período festivo de Natal na Índia, um país conhecido por sua diversidade religiosa, foi marcado por uma série de incidentes alarmantes que se espalharam por estados como Chhattisgarh, Madhya Pradesh, Uttar Pradesh, Assam, Uttarakhand, Nova Déli e Kerala. Relatos detalhados indicam que mais de oitenta ataques foram orquestrados por extremistas hindus, que sistematicamente perturbaram celebrações, eventos e reuniões cristãs. A natureza desses ataques variou desde a intimidação verbal e vandalismo até confrontos violentos e agressões físicas, evidenciando uma coordenação por parte dos agressores.
Essas ações foram amplamente atribuídas a grupos afiliados a ideologias hindus radicais, notadamente o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) e o Vishwa Hindu Parishad (VHP). O VHP, em particular, exerceu uma influência considerável ao condenar publicamente as celebrações de Natal e ao instar os hindus a boicotarem as festividades, uma postura que críticos apontam como catalisadora para a onda de ataques. Essa incitação pública criou um ambiente propício para a manifestação de hostilidades contra a comunidade cristã, que, embora minoritária, tem uma presença histórica e cultural significativa em várias partes do país.
Um dos incidentes mais chocantes ocorreu em Kerala, onde um grupo de crianças que cantava canções natalinas em via pública foi violentamente agredido por um homem hindu, que destruiu seus instrumentos musicais. Em Madhya Pradesh, igrejas foram alvos de ataques, resultando em confrontos violentos. Em Jabalpur, no mesmo estado, uma figura proeminente do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata Party (BJP) foi registrada invadindo uma igreja e agredindo uma mulher cristã com deficiência visual, em um ato que sublinhou a gravidade da intolerância religiosa e a audácia dos agressores em espaços de culto.
Manifestações de Vandalismo e Censura
Ataques a Símbolos e Espaços Cristãos
Além da violência física, o período de Natal foi caracterizado por extensos atos de vandalismo e tentativas de censura contra símbolos e espaços associados às celebrações cristãs. No estado de Assam, a escola cristã St. Mary’s English School sofreu uma invasão por uma multidão, que resultou na queima de um presépio e na destruição das decorações natalinas, um ataque direto à representação do nascimento de Jesus Cristo e um símbolo fundamental da fé cristã. Em Raipur, capital de Chhattisgarh, um grupo de aproximadamente noventa homens vandalizou as decorações de Natal em um shopping center, reiterando a intenção de desfigurar qualquer manifestação pública das festividades cristãs em espaços públicos e comerciais.
A intimidação se estendeu ao comércio e a eventos culturais. Em Odisha, vendedores de rua que ofereciam gorros de Papai Noel foram assediados por grupos hindus, que alegavam que a venda de “itens cristãos” era proibida, sob o pretexto de que a Índia seria um estado exclusivamente hindu. Essa retórica, embora sem base legal na constituição secular do país, é frequentemente usada para justificar atos de discriminação e coação contra minorias religiosas. Em Haridwar, Uttarakhand, um evento de Natal programado para o hotel UP Tourism em 24 de dezembro foi forçado a ser cancelado. Líderes hindus criticaram a celebração nas proximidades do rio Ganges, um local sagrado para o hinduísmo, rotulando-a como “anti-hindu” e exercendo pressão para o seu cancelamento, demonstrando a crescente pressão sobre eventos que não se alinham com a narrativa majoritária.
A perseguição também se manifestou contra atos de fé. Em Uttar Pradesh, grupos hindus organizaram protestos em frente a uma catedral durante as orações de Natal, acusando os cristãos de tentar converter pessoas a sua fé. Tais protestos, que frequentemente ocorrem sob a égide da “lei anti-conversão” em alguns estados, geram um clima de medo e vigilância, dificultando a prática livre da religião e o direito de reunião. A série de incidentes, desde a destruição de símbolos religiosos até a interrupção de celebrações e o assédio a indivíduos, pinta um quadro preocupante de uma sociedade onde a coexistência pacífica e o respeito às minorias são crescentemente desafiados por ideologias radicais e nacionalistas.
Reações e o Desafio da Liberdade Religiosa
A onda de ataques contra as celebrações de Natal na Índia reverberou por toda a imprensa local e viralizou nas redes sociais, expondo a vulnerabilidade da comunidade cristã. No entanto, a resposta das autoridades foi amplamente criticada pela sua ineficácia. Houve uma percepção generalizada de que as medidas para impedir a violência e punir os agressores foram insuficientes, alimentando a sensação de impunidade que parece encorajar novos atos de intolerância. Essa falta de ação oficial foi particularmente apontada ao Primeiro-Ministro indiano, Narendra Modi, líder do Bharatiya Janata Party (BJP), que foi duramente criticado por não se manifestar ou agir contra a perseguição, mesmo enquanto participava discretamente de alguns eventos natalinos, levantando questões sobre a postura do governo federal.
Em meio a esse cenário, diversas vozes se ergueram em condenação aos ataques. Líderes religiosos e políticos, tanto na Índia quanto internacionalmente, exigiram que as autoridades cumprissem seu dever constitucional de garantir a liberdade religiosa e proteger as minorias. O renomado jornalista Rajdeep Sardesai, em rede nacional de televisão, refutou veementemente os incidentes, classificando-os como preconceituosos e anticonstitucionais. Sardesai criticou abertamente a postura do governo, declarando que, em vez de agir com rigor contra os agressores, “seus líderes políticos no poder hoje simplesmente fazem vista grossa ou, pior ainda, parecem endossar esse comportamento selvagem”, sublinhando que tais atos envergonham a Índia como uma nação plural e inclusiva aos olhos do mundo.
O Primeiro-Ministro do estado de Kerala, M. Pinarayi Vijayan, também expressou sua profunda preocupação, mencionando os relatos de pressões e ameaças de organizações afiliadas ao RSS contra o Natal. Ele enfatizou que “qualquer usurpação dos direitos fundamentais garantidos pela Constituição não pode ser aceita”, reforçando a importância da proteção dos direitos civis e religiosos de todos os cidadãos. Organizações de apoio a cristãos perseguidos, como a Portas Abertas, manifestaram que os incidentes “reforçaram a incerteza e os medos de muitos cristãos enquanto buscam celebrar a pacífica temporada natalina”, destacando o impacto psicológico e social dessas agressões. A Conferência dos Bispos Católicos da Índia, por sua vez, apelou ao ministro federal do interior, Amit Shah, solicitando a proteção das comunidades cristãs e salientando que os ataques, especialmente contra cantores de canções natalinas e congregações, “minam gravemente as garantias constitucionais de liberdade religiosa e o direito de viver e adorar sem medo”. A escalada de hostilidades durante o Natal de 2023 serve como um sombrio lembrete dos desafios persistentes à liberdade religiosa e à coexistência pacífica na Índia, exigindo uma reflexão profunda sobre o futuro da sua identidade secular e pluralista.
Fonte: https://guiame.com.br