Uma família somali, composta por Fatuma Juma, seu marido Ibrahim Mohammed e os três filhos do casal, foi compelida a abandonar sua residência em Kismayo após a conversão de ambos os pais ao cristianismo. A adesão a uma fé diferente do Islã é considerada apostasia na Somália, crime punível com a pena capital, o que expôs a família a um grave risco e os levou a buscar refúgio em um local não revelado, enquanto apelam por apoio internacional.
Fatuma Juma, residente de Kismayo, relatou uma conversão pessoal ao cristianismo no final do ano passado. Ciente dos severos riscos legais e sociais impostos pela legislação somali, que criminaliza a apostasia com a pena de morte, Juma inicialmente manteve sua nova fé em estrito sigilo. Contudo, a privacidade de sua crença foi comprometida durante um encontro religioso clandestino em abril do ano anterior. Enquanto participava com duas de suas filhas, de 7 e 9 anos, Fatuma foi dominada pela emoção ao ouvir uma mensagem, chorando de forma incontrolável. Alarmadas, as crianças retornaram para casa e relataram o ocorrido ao pai, Ibrahim Mohammed.
Preocupado com a ausência prolongada de Juma, Mohammed enviou o filho mais velho, de 13 anos, para buscá-la. Ao não obter retorno imediato, ele próprio se dirigiu ao local do encontro, onde confrontou a esposa de forma veemente. Diante da pressão e visivelmente abalada, Juma proferiu uma oração em voz alta, declarando seu novo compromisso com a fé cristã, o que deixou o marido atônito e confuso. Após o incidente, o medo e o isolamento marcaram a vida de Fatuma, que foi proibida pelo marido de frequentar serviços religiosos cristãos, embora ansiasse por exercer sua fé abertamente.
Em meados de agosto, Fatuma tomou a difícil decisão de deixar o lar com seus três filhos, buscando refúgio em um paradeiro não revelado. A separação, no entanto, provocou grande angústia em Ibrahim. Em outubro, ele contatou Fatuma, solicitando permissão para se juntar a ela e aos filhos, com a promessa de aceitar sua fé. Um mês depois, no dia de Natal, Ibrahim também se converteu ao cristianismo.
A conversão de Ibrahim, precedida por sua revelação a familiares sobre a nova fé da esposa, expôs toda a família a represálias. Fatuma Juma confirmou a impossibilidade de retornar a Kismayo devido às ameaças e ao medo de violência. O casal agora faz um apelo urgente por orações e assistência financeira, que são essenciais para a matrícula dos filhos na escola e para a busca por meios de subsistência enquanto permanecem em clandestinidade.
O Cenário da Perseguição Religiosa na Somália
A Somália figura como um dos países mais perigosos para cristãos, ocupando a segunda posição na última edição da Lista Mundial da Perseguição, elaborada pela organização cristã Portas Abertas. A constituição do país estabelece o Islã como religião oficial e proíbe terminantemente a propagação de qualquer outra fé, conforme aponta o Departamento de Estado dos EUA. Além disso, a legislação exige que todas as leis nacionais estejam em conformidade com os princípios da Sharia, a lei islâmica, sem prever exceções para não muçulmanos.
Dentro do arcabouço da lei islâmica, conforme interpretado pelas principais escolas de jurisprudência, a apostasia – o abandono do Islã – é punível com a pena de morte. Grupos extremistas como o Al-Shabaab, afiliado à Al-Qaeda e ativo na Somália, aderem rigorosamente a esses preceitos, intensificando o risco para qualquer indivíduo que se converta a outra religião no país.