A Arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, confirmou, através de seu gabinete, sua participação em uma votação crucial sobre a legislação de aborto na Câmara dos Lordes britânica, nesta quarta-feira. A decisão põe fim a uma controvérsia gerada pela possibilidade de sua ausência, devido a uma peregrinação previamente agendada, e ocorre em meio a intensas pressões de grupos pró-vida e membros da própria Igreja da Inglaterra.
A líder anglicana havia anunciado uma peregrinação de seis dias a Canterbury, com início na terça-feira, o que levantou preocupações sobre sua disponibilidade para a votação de uma emenda ao Projeto de Lei de Crime e Polícia. Organizações como a Sociedade para a Proteção de Crianças Não Nascidas (SPUC) criticaram veementemente a possível ausência, descrevendo-a como um “indício condenável” para a Arcebispa e a hierarquia da Igreja.
Um porta-voz do Palácio de Lambeth, residência oficial da Arcebispa, assegurou que sua presença no Parlamento está garantida e que a peregrinação não será comprometida. “A Arcebispa estará na Câmara dos Lordes na quarta-feira para votar as emendas propostas ao Projeto de Lei de Crime e Polícia. Isso não afetará a peregrinação ou seu percurso, que começa esta tarde”, declarou o porta-voz.
A Proposta Controversa na Câmara dos Lordes
A votação em questão refere-se a emendas ao Projeto de Lei de Crime e Polícia do governo britânico, em particular uma cláusula polêmica que propõe a descriminalização do aborto em qualquer fase da gravidez para mulheres na Inglaterra e no País de Gales. No ano passado, a Câmara dos Comuns já havia aprovado uma alteração no arcabouço legal vigente, que impediria a perseguição de mulheres que interrompessem sua própria gravidez, mesmo após o limite legal de 24 semanas.
Críticos dessa alteração argumentam que ela, na prática, legalizaria o aborto até o termo da gravidez, por qualquer motivo, uma mudança substancial em relação à Lei do Aborto de 1967, que estabelece condições e limites para a interrupção da gestação. Médicos e eticistas, como o Dr. Calum Miller, têm pressionado os bispos da Igreja da Inglaterra a participarem ativamente da votação, considerando a presença da Arcebispa Mullally uma “boa notícia” e um incentivo para outros bispos.
A Voz da Igreja e a Posição da Arcebispa
A posição da Arcebispa Mullally sobre o aborto tem sido objeto de escrutínio desde sua nomeação como sucessora de Justin Welby. Anteriormente, ela se descreveu como “pró-escolha”, o que gerou debates. No entanto, em outubro passado, ela esclareceu sua visão em comentários ao jornal Church Times.
“Estou ciente de que no passado fui rotulada como ‘pró-escolha’ — talvez devido à minha carreira anterior —, mas este é um debate complexo, e não creio que minhas opiniões ou as de outros possam ser categorizadas tão simplesmente”, afirmou. Ela ressaltou seu apoio à “oposição principiológica da Igreja da Inglaterra ao aborto”, mas com o reconhecimento de que podem existir “condições estritamente limitadas sob as quais o aborto pode ser preferível a quaisquer alternativas disponíveis”. A Arcebispa também enfatizou a necessidade de “compaixão e cuidado” e apoio para mulheres que enfrentam gestações indesejadas, as quais se deparam com escolhas extremamente difíceis.
O Contexto da Peregrinação Espiritual
A peregrinação de 140 km da Arcebispa Mullally teve início na Catedral de St. Paul, em Londres, na tarde de terça-feira. Este percurso é parte de sua preparação espiritual antes de iniciar oficialmente seu ministério público como Arcebispa de Canterbury, com sua instalação na Catedral de Canterbury em 25 de março.