A Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS) emitiu uma diretriz formal recomendando o adiamento de cirurgias de redesignação sexual para indivíduos com menos de 19 anos de idade. Esta posição, uma das primeiras de uma organização médica de grande porte nos Estados Unidos a abordar o tema com tal restrição, é fundamentada em crescentes preocupações éticas, a irreversibilidade das intervenções e a limitada evidência sobre seus benefícios a longo prazo, especialmente na saúde mental de pacientes pediátricos e adolescentes.
A medida orienta seus mais de 11.000 membros globalmente a postergar procedimentos cirúrgicos nos seios, genitais e face até que o paciente alcance a maioridade, estabelecendo um limite de idade de 19 anos. A ASPS justificou a decisão citando 'evidências de baixíssima ou baixa certeza' em relação aos desfechos psicológicos e psicossociais, além de 'preocupações emergentes sobre possíveis danos a longo prazo e a natureza irreversível das intervenções cirúrgicas', indicando que não há uma relação risco-benefício favorável baseada nos dados atuais.
Evolução da Posição Institucional
Historicamente, a ASPS havia se alinhado a outras entidades médicas no apoio ou neutralidade em relação às cirurgias de afirmação de gênero para menores. No entanto, nos últimos dois anos, a organização começou a reavaliar sua postura, culminando na moderação de sua posição atual. Em comunicado, a Sociedade esclareceu que sua compreensão sobre o tema 'continuou a evoluir à luz de novas revisões abrangentes das evidências'.
Entre os estudos que influenciaram a revisão da ASPS estão a Cass Review, uma avaliação independente significativa conduzida no Reino Unido sobre os serviços de identidade de gênero para crianças e jovens, e uma revisão de 2025 do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo norte-americano. Essas análises contribuíram para uma compreensão mais clara dos potenciais riscos, ao mesmo tempo em que expuseram as lacunas nas evidências disponíveis, sobretudo na documentação de resultados físicos, psicológicos e psicossociais em longo prazo.
Disforia de Gênero e o Desafio da Persistência
A disforia de gênero é definida como um desconforto significativo ou sofrimento que uma pessoa pode sentir quando seu sexo biológico e sua identidade de gênero não correspondem. A declaração da ASPS ressalta um ponto crucial: 'as evidências disponíveis sugerem que uma proporção considerável de crianças com disforia de gênero de início pré-puberal experimenta uma resolução ou redução significativa de seu sofrimento na idade adulta, sem intervenção médica ou cirúrgica'.
A dificuldade em prever a persistência da disforia é um ponto central levantado pela Sociedade. A organização destaca que, atualmente, mesmo médicos experientes 'não possuem métodos confiáveis para distinguir entre aqueles cujo desconforto persistirá e aqueles cujo desconforto diminuirá'. Esta incerteza diagnóstica e prognóstica reforça a cautela quanto a intervenções cirúrgicas permanentes em idades precoces, especialmente porque os membros da ASPS são frequentemente os profissionais que realizam esses procedimentos.