A Nigéria, nação mais populosa da África, encontra-se sob um escrutínio internacional crescente devido a alegações de que seu governo estaria minimizando a extensão da violência anticristã perpetrada por grupos militantes islâmicos. Esta controvérsia emerge em meio a relatos alarmantes sobre o número de cristãos mortos por sua fé no país, superando a soma de todas as outras nações. A negação oficial, conforme apontado por observadores e líderes religiosos, cria um abismo entre a percepção governamental e a dura realidade enfrentada por comunidades cristãs, gerando preocupações globais sobre direitos humanos e liberdade religiosa na região. O cenário complexo envolve tensões inter-religiosas, disputas por recursos e a atuação de grupos extremistas que desestabilizam a paz.
A Complexa Realidade da Violência Religiosa e a Negação Governamental
Escalada da Violência e Discurso Controverso
A acusação de que o governo nigeriano nega a verdadeira dimensão da violência anticristã não é recente, mas ganhou proeminência com o envolvimento de figuras internacionais de alto escalão. No final de outubro do ano anterior, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a intenção de designar a Nigéria como um “País de Preocupação Especial” devido à severa perseguição religiosa. Essa designação é aplicada a nações cujos governos se engajam ou toleram “violações sistemáticas, contínuas e flagrantes da liberdade religiosa”. A medida sublinhava uma percepção global de que a situação no país africano havia atingido um ponto crítico, exigindo atenção e ação coordenadas.
Em um movimento subsequente e dramático, intensificando a pressão internacional, os EUA lançaram uma série de ataques aéreos no dia de Natal, visando militantes islâmicos no noroeste da Nigéria. Embora o governo nigeriano tenha participado da coordenação desses ataques, a postura de Abuja diverge significativamente das declarações de Trump. O ex-presidente americano afirmou categoricamente que os militantes “estão matando cristãos e matando-os em grande número. Não vamos permitir que isso aconteça”. Essa declaração, que associa diretamente a violência à motivação religiosa e ao genocídio de cristãos, foi refutada pelas autoridades nigerianas, que preferem caracterizar os conflitos como disputas agrárias, banditismo ou criminalidade comum, evitando a qualificação de perseguição religiosa sistemática. Essa disparidade de narrativas é o cerne da controvérsia e alimenta as acusações de negação. A recusa em reconhecer a natureza religiosa da violência, segundo críticos, impede uma resposta eficaz e direcionada aos agressores, perpetuando o ciclo de violência e impunidade.
Dados Alarmantes e o Cenário Global da Perseguição
Estatísticas Chocantes e o Ranking de Perseguição
As preocupações internacionais são substanciadas por relatórios de organizações dedicadas à monitorização da perseguição religiosa e dos direitos humanos. A organização Portas Abertas, por exemplo, especializada no apoio a cristãos perseguidos, classifica a Nigéria como o 7º país que mais persegue cristãos no mundo em seu Índice de Perseguição. Este dado é particularmente perturbador, considerando que os cristãos representam aproximadamente metade da população nigeriana, coabitando com uma significativa população muçulmana e seguidores de religiões tradicionais. O relatório anual da Portas Abertas destaca que, apesar de sua vasta população cristã, a Nigéria é o epicentro de uma violência direcionada, tornando-se o local onde mais cristãos são mortos por sua fé em comparação com todos os outros países do mundo somados – um fato que sublinha a gravidade singular da crise nigeriana.
As estimativas dos números de vítimas são chocantes e variam entre diferentes fontes, mas todas apontam para uma crise humanitária de proporções alarmantes. A Portas Abertas estima que, somente no ano em curso, cerca de 3.100 cristãos foram mortos na Nigéria, de um total global de 4.476 mortes registradas por motivos de fé. No entanto, outras entidades apontam para números ainda mais sombrios e alarmantes. A Sociedade para as Liberdades Civis e o Estado de Direito (Intersociety) estima que esse número possa chegar a 7.000 vítimas apenas no mesmo período. Essas estatísticas ressaltam a urgência e a gravidade da situação, evidenciando que a negação ou a minimização dos fatos pode ter consequências devastadoras para milhões de cidadãos, exacerbando a vulnerabilidade das minorias religiosas e minando a coesão social. A disparidade entre o reconhecimento governamental e a realidade apresentada por estes relatórios alimenta a desconfiança e a frustração das comunidades afetadas, que clamam por justiça e proteção.
Desafios na Busca por Paz e Reconhecimento da Perseguição
A resposta do governo nigeriano à crescente onda de violência tem sido vista com ceticismo por muitos observadores internacionais e líderes religiosos locais. Em uma tentativa de conter a insegurança generalizada, o presidente da Nigéria, Bola Tinubu, anunciou no mês passado um estado de emergência nacional e prometeu dobrar o efetivo policial do país, visando reforçar a segurança nas regiões mais afetadas. No entanto, suas declarações foram alvo de críticas. Tinubu insinuou que muçulmanos também estariam sendo mortos por cristãos, uma narrativa que, segundo líderes cristãos e analistas independentes, carece de evidências substanciais de um padrão sistemático de perseguição, exceto em casos isolados de retaliação que não configuram um movimento organizado. Líderes cristãos nigerianos têm denunciado veementemente essas tentativas de retratar a violência como um “conflito social” genérico entre pastores muçulmanos e agricultores cristãos por terras e recursos, argumentando que essa simplificação ignora o elemento religioso explícito e as motivações extremistas por trás de muitos ataques, perpetuados por grupos armados com clara agenda ideológica.
Em entrevista, o Reverendo John Hayab, presidente da Associação Cristã da Nigéria (CAN), afirmou categoricamente: “Há perseguição religiosa no norte da Nigéria e posso dizer ao governo nigeriano que a razão pela qual não estamos lidando com isso é porque vivemos em negação.” Ele prosseguiu com uma declaração impactante, que ressoa profundamente com as vítimas da violência: “Se você está negando, é como se estivesse apoiando o homem que está nos matando.” Essa fala ecoa o sentimento de muitas comunidades que se sentem abandonadas e desprotegidas diante da inação ou da minimização oficial. Tiffany Barrens, diretora global de defesa de direitos da Portas Abertas International, corrobora essa perspectiva, observando uma evolução preocupante na natureza do conflito: “Dez anos atrás, a questão era mais sobre terra e recursos. O que temos visto cada vez mais é que o elemento religioso se tornou mais evidente.” Ela sugere que “as pessoas têm medo de reconhecer o elemento religioso, porque temem que isso leve a mais divisões”, uma preocupação compreensível, mas que, paradoxalmente, a negação pode agravar. O desafio, portanto, reside em superar a negação e reconhecer plenamente a complexidade e as múltiplas facetas da violência, incluindo a dimensão religiosa, para poder implementar soluções eficazes e duradouras que garantam a segurança e a liberdade de todos os cidadãos nigerianos. A persistência dessa negação não apenas prolonga o sofrimento das comunidades, mas também mina os esforços de reconciliação e justiça, essenciais para a estabilidade e o futuro de uma nação já fragilizada por profundas divisões e desafios de segurança.
Fonte: https://folhagospel.com