O deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) proferiu críticas contundentes ao que classificou como fanatismo político dentro do segmento evangélico, apontando o movimento bolsonarista como um catalisador dessa polarização. As declarações foram dadas em São Paulo, durante a edição da série 'Conversas Difíceis', promovida pelo Instituto Humanitas360, onde o parlamentar debateu a suposta distorção de valores cristãos pela politização extremada.
Pastor da Assembleia de Deus e membro da influente Frente Parlamentar Evangélica, Otoni de Paula detalhou seu distanciamento do campo bolsonarista. Ele descreveu o cenário como um 'sequestro emocional e espiritual' das igrejas evangélicas nos últimos anos, argumentando que a fusão de fé e política gerou uma ruptura com princípios cristãos basilares, exemplificado pela afirmação de que 'o bolsonarismo determinou uma guerra de quem é de Deus e quem é do diabo'.
Arrependimento e Reavaliação de Postura
O parlamentar expressou publicamente seu arrependimento por ter sido, em suas palavras, 'mais bolsonarista do que cristão' após as eleições de 2018, assumindo que essa postura lhe tem custado um 'preço muito alto'. Ele condenou a glorificação de figuras políticas em templos, qualificando o uso do termo 'mito' para Jair Bolsonaro como um 'sinal gravíssimo de idolatria', o que, segundo ele, confronta diretamente os ensinamentos de Cristo. Para Otoni, o fundamentalismo político diverge radicalmente da mensagem de amor e inclusão do cristianismo, defendendo que a fé não deve ser instrumentalizada como ferramenta de exclusão ou de guerra cultural.
O debate que sediou suas declarações abordou a complexa e crescente intersecção entre política e religião no Brasil contemporâneo, um tema de significativa relevância no cenário eleitoral. Otoni participou do painel ao lado da cineasta Petra Costa, diretora do documentário 'Apocalipse nos Trópicos', que explora a influência do fundamentalismo evangélico em governos, e teve mediação do antropólogo Juliano Spyer.
Tolerância e Respeito às Diferenças
Em um discurso de respeito e abertura, o deputado abordou temas comportamentais, contrastando o fundamentalismo com os valores cristãos. 'O fundamentalismo não admite que duas pessoas do mesmo sexo se amem e constituam família. O cristianismo respeita a diferença', declarou, enfatizando a necessidade de respeitar a verdade alheia antes de pregar. Ele também defendeu o reconhecimento de manifestações religiosas de matriz africana como legítimas expressões culturais do país, distanciando-se de discursos intolerantes comumente associados a setores evangélicos mais conservadores.
Otoni de Paula criticou abertamente outras lideranças religiosas com forte engajamento político, mencionando especificamente o pastor Silas Malafaia, a quem acusou de ser 'movido por interesses pessoais que são vendidos como interesses de Deus'. Adicionalmente, o parlamentar defendeu a tolerância institucional e o respeito às autoridades democraticamente eleitas, reiterando que 'se toda autoridade vem do Senhor, o mesmo Deus que permitiu Bolsonaro, permitiu Lula ser presidente. Temos que orar por ambos'.
Distanciamento Político e Contexto Atual
Nos últimos meses, o parlamentar tem promovido uma revisão pública de sua trajetória, marcando um claro distanciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem apoiara no passado. Ele lamenta ter usado o epíteto 'mito' e afirmou preferir 'andar sozinho do que mal acompanhado', classificando o bolsonarismo como uma vertente radical que se sobrepôs a um conservadorismo mais amplo. Embora crítico, Otoni reitera sua identificação como conservador, porém desvinculado do núcleo radical associado ao ex-chefe do Executivo.
Esse posicionamento gerou reações no meio político. O deputado relatou ter sido alvo de hostilidade por parte de colegas da Frente Parlamentar Evangélica após um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, onde orou pelo atual chefe de Estado. A presidente do Instituto Humanitas360, Patrícia Villela Marino, inaugurou o evento destacando a missão do projeto de abordar temas sensíveis através do diálogo e do 'maior mandamento bíblico: amar'.
A cineasta Petra Costa, por sua vez, alertou para os riscos da íntima aproximação entre religião e poder político no Brasil, onde a influência evangélica tem crescido significativamente nas últimas décadas. 'Existe uma linha muito tênue entre igreja e Estado. Defender dentro da igreja em quem votar é algo com o qual eu não concordo', pontuou, sublinhando a importância da separação constitucional entre as esferas religiosa e estatal para a manutenção da democracia e da pluralidade de ideias.