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Paquistão: 25 Mil Cristãos sob Ordem de Despejo

Os moradores protestaram contra a ordem de despejo. (Foto: Reprodução/Facebook/Julius Salik).

Mais de 25 mil membros da comunidade cristã em Islamabad, capital do Paquistão, receberam ordens de desocupação de seus lares, situados em assentamentos informais. A notificação verbal, emitida no início de março pela Autoridade de Desenvolvimento da Capital (CDA), afeta majoritariamente famílias pobres que, em muitos casos, já haviam sido realocadas para essas áreas após incidentes de perseguição religiosa. A medida levanta sérias preocupações humanitárias, visto que não foram apresentadas alternativas de moradia, e contradiz uma ordem de suspensão da Suprema Corte de 2015.

Os três assentamentos — Colônias de Rimsha, Sharpar e Akram Gill — são o lar de aproximadamente 25 mil indivíduos. A grande maioria dessas pessoas são cristãos de baixa renda, empregados em setores essenciais como saneamento básico, construção civil e serviços domésticos. Muitos residem nessas áreas há mais de uma década, e a perspectiva de despejo sem alternativas gerou pânico e incerteza, conforme relatado por moradores como Anwar Masih ao Christian Daily International, que questionou: "Para onde iremos? Nossas crianças não conseguem dormir à noite com essa preocupação constante."

Histórico de Vulnerabilidade: A Origem dos Assentamentos

A formação dessas comunidades remonta a 2012, após um incidente de perseguição que impactou profundamente a minoria cristã. Na ocasião, uma adolescente cristã com deficiência mental, Rimsha Masih, foi falsamente acusada de profanar páginas do Alcorão em Islamabad. Esse episódio desencadeou um clima de medo e tensão, levando muitas famílias cristãs a fugir de suas casas na região de Mehrabadi durante a noite, temendo ataques e retaliações. Em resposta à crise humanitária, o próprio governo paquistanês providenciou a realocação dessas famílias para as áreas que hoje compreendem as colônias de Rimsha, Sharpar e Akram Gill.

O que inicialmente eram abrigos temporários evoluiu para moradias permanentes ao longo dos anos, conforme descrito pelo líder comunitário Imran Shahzad Sahotra. Apesar da formação de uma comunidade coesa, com pequenas igrejas e escolas informais, os assentamentos ainda carecem de serviços básicos essenciais. Acesso confiável a água potável, saneamento adequado e cuidados de saúde permanecem desafios significativos para os moradores, evidenciando uma precariedade estrutural persistente.

Controvérsia Legal e Mobilização Comunitária

A notificação de despejo provocou uma série de protestos e momentos de oração desde 12 de março, com os moradores exigindo justiça. Líderes das colônias de Rimsha e Sharpar expressaram indignação, alegando que as autoridades agem sem apresentar planos de reassentamento concretos. Imran Shahzad Sahotra criticou veementemente a decisão, salientando a grave injustiça de remover habitantes de áreas precárias sem oferecer abrigos alternativos, especialmente considerando que muitos não possuem recursos financeiros para se mudar e enfrentam discriminação sistêmica no mercado imobiliário paquistanês.

Organizações de direitos humanos, como a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão (HRCP), condenaram a ordem de despejo, classificando-a como uma violação da legislação local e dos direitos fundamentais. A HRCP ressaltou que esses assentamentos estão protegidos por uma ordem de suspensão emitida pela Suprema Corte do Paquistão em 2015. Essa decisão judicial proíbe categoricamente o despejo de moradores de áreas informais sem que arranjos adequados de reassentamento sejam providenciados. A comissão apelou às mais altas autoridades governamentais, incluindo o primeiro-ministro e ministros-chave, para que intervenham e assegurem os direitos dessas comunidades vulneráveis.

Contexto da Perseguição Religiosa no Paquistão

A situação enfrentada pelos cristãos em Islamabad se insere em um contexto mais amplo de desafios contínuos para as minorias religiosas no Paquistão. O país, onde aproximadamente 96% da população é muçulmana, é consistentemente classificado entre os lugares mais hostis para ser cristão. A organização Portas Abertas, em sua Lista Mundial da Perseguição de 2026, posicionou o Paquistão em 8º lugar globalmente, destacando a severidade da perseguição religiosa. Leis de blasfêmia, frequentemente usadas de forma abusiva, e a discriminação sistêmica contribuem para a vulnerabilidade de comunidades como a cristã, que já enfrentam dificuldades socioeconômicas e habitacionais.

Diante da iminente ameaça, líderes comunitários e ativistas continuam a clamar por justiça e dignidade, instando as autoridades a cumprir as determinações judiciais e a oferecer soluções humanas para a crise habitacional. A comunidade internacional acompanha de perto o desdobramento da situação, que evidencia a contínua luta por direitos básicos e reconhecimento das minorias religiosas no Paquistão.

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