Líderes eclesiásticos de Jerusalém emitiram um relatório contundente, revelando a complexa teia de dificuldades e desafios que atualmente assolam as comunidades cristãs residentes na Terra Santa. O documento, elaborado pelo Conselho de Patriarcas e Chefes de Igrejas em Jerusalém, apresenta um panorama detalhado de uma realidade multifacetada, marcada tanto pela violência direta de um conflito em andamento quanto por pressões administrativas e ameaças ao patrimônio cultural e religioso. As questões abordadas sublinham uma crescente preocupação com a sustentabilidade da presença cristã na região, que, apesar de sua antiguidade e significado histórico, encontra-se sob tensão. O relatório serve como um apelo urgente à comunidade internacional, destacando a necessidade de intervenção para salvaguardar a liberdade religiosa, o bem-estar das comunidades e a integridade de locais sagrados. A resiliência dos cristãos na Terra Santa é testada diariamente por uma série de fatores que vão desde a escassez humanitária até a restrição de acesso a eventos religiosos e a ameaça de expropriação de terras históricas.
Impactos Devastadores do Conflito e Crise Humanitária em Gaza
O Fogo Cruzado Atinge Locais Sagrados e Vidas Inocentes
A realidade de viver em uma zona de guerra é a principal preocupação delineada pelo relatório, que enfatiza como o conflito entre Israel e o Hamas transcende as barreiras religiosas, com cristãos frequentemente sendo atingidos pelo fogo cruzado. A devastação material e humana é palpável em Gaza, onde a Igreja da Sagrada Família, uma das poucas igrejas na região, foi alvo de um explosivo israelense em julho, resultando na morte de três pessoas e deixando dez feridos. Outros locais de veneração e infraestruturas essenciais para a comunidade cristã também sofreram danos significativos, como a histórica Igreja de São Porfírio e o Hospital Batista Al Ahli, instituições vitais para o acolhimento e tratamento da população local. Embora um cessar-fogo tenha trazido uma pausa nos combates mais intensos, a situação cotidiana na Faixa de Gaza permanece extraordinariamente difícil, como destaca o documento.
A crise humanitária é aguda, com o Hospital Batista Al Ahli enfrentando uma severa escassez de equipamentos médicos e medicamentos, devido às rigorosas restrições à entrada de ajuda humanitária em Gaza. O Padre Gabriel Romanelli, pároco da Sagrada Família, ecoou a gravidade da situação em declarações recentes, alertando que milhões de pessoas em Gaza carecem de tudo. Ele descreveu os esforços hercúleos para fornecer assistência, com o Patriarcado Latino de Jerusalém conseguindo enviar ajuda que beneficiou mais de 12.000 famílias. Mesmo os pequenos confortos da vida diária, como o chocolate no Natal, tornam-se luxos distantes em meio à privação generalizada. O relatório do Conselho de Patriarcas, ao reconhecer uma “ligeira melhora na vida cotidiana” em Gaza, insiste que a conjuntura é sombria e clama por ações imediatas para fortalecer o cessar-fogo e garantir que a ajuda humanitária alcance todos os necessitados, enfatizando a importância de proteger as comunidades cristãs e seu patrimônio cultural e religioso na Terra Santa.
Ameaças Recorrentes na Cisjordânia e Pressões Administrativas em Jerusalém
Ataques de Colonos e Restrições à Liberdade de Culto
O relatório também lança luz sobre os crescentes relatos de ataques por colonos israelenses contra comunidades cristãs na Cisjordânia, uma tendência que se intensificou notavelmente desde o início do conflito em Gaza. A cidade cristã de Taybeh foi um dos alvos, onde colonos teriam ateado fogo próximo a uma igreja histórica e impedido os moradores de colher suas azeitonas, um ato que ameaça diretamente os meios de subsistência de famílias inteiras. O documento sublinha a “necessidade urgente de proteger as comunidades cristãs e os nossos locais de culto”, que se estendem por toda a Cisjordânia, e onde ataques de colonos visam igrejas, pessoas e propriedades com crescente frequência. A falta de sanções eficazes contra os responsáveis por esses atos tem sido um fator preocupante, perpetuando um ciclo de impunidade.
Em Jerusalém, a situação não é menos complexa. Grupos radicais israelenses têm sido responsabilizados por interrupções e ataques a procissões cristãs na Cidade Velha, especialmente durante a Semana Santa. Este ano, as autoridades israelenses impuseram medidas de segurança ainda mais rigorosas, que efetivamente impediram muitos cristãos, incluindo aqueles com permissões válidas, de participar de eventos no Santo Sepulcro, local de máxima importância para a fé cristã. Houve relatos de incidentes graves, como a ameaça de um líder escoteiro com uma arma por um policial, enquanto judeus que desejavam entrar na Cidade Velha para a Páscoa não enfrentaram tais restrições. Paralelamente, o relatório critica as autoridades israelenses pela imposição de impostos municipais, conhecidos como “arnona”, sobre propriedades da igreja. Argumenta-se que estes impostos violam acordos históricos e tratados que datam de séculos, representando um fardo financeiro insustentável para as instituições eclesiásticas. O Patriarcado Armênio, por exemplo, enfrenta um processo de execução hipotecária, e as contas bancárias do Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém chegaram a ser congeladas pela prefeitura em agosto, uma ação que só foi revertida após protestos internacionais, evidenciando a fragilidade das garantias de liberdade religiosa e patrimonial para os cristãos na região.
Defesa do Patrimônio Cristão e Apelo Global por Apoio e Paz
Uma preocupação adicional de grande relevância, detalhada no relatório, reside nos planos de expansão do Parque Nacional das Muralhas de Jerusalém, os quais parecem avançar à custa de propriedades da igreja no histórico Monte das Oliveiras. Este local é de importância fundamental para o cristianismo, sendo o palco de eventos cruciais da vida de Jesus. Os planos de expansão são impulsionados por um grupo judaico radical, Elad, e levantam sérios temores de que possam restringir o acesso de peregrinos cristãos a locais sagrados e, possivelmente, profanar a santidade da área. Diante disso, os Patriarcas fizeram um apelo veemente para o cancelamento desses planos, exigindo que as autoridades demonstrem respeito pela sacralidade do Monte das Oliveiras para os cristãos. Esta ameaça ao patrimônio cristão, particularmente em Jerusalém, na Cisjordânia e em Gaza, juntamente com a questão da tributação injustificada, constitui uma fonte de preocupação constante, que ameaça a própria existência das comunidades e igrejas na região. O relatório do Conselho de Patriarcas e Chefes de Igrejas em Jerusalém, portanto, não é apenas um registro de adversidades, mas um apelo urgente por reconhecimento e ação. Ele enfatiza a necessidade de reforçar e manter o cessar-fogo em Gaza, defender a liberdade religiosa, proteger os cristãos, a quem se refere como “pedras vivas”, e proporcionar apoio econômico e diplomático para sustentar suas comunidades em toda a Terra Santa. As igrejas na região são apresentadas como atores essenciais na construção de uma paz duradoura, tanto para israelenses quanto para palestinos, capazes de moldar um futuro onde todos possam prosperar. Conclui-se com um encorajamento explícito para que entidades externas e governos apoiem de forma urgente as instituições da Igreja e a presença cristã por meio de suporte econômico e pressão diplomática eficaz sobre as questões específicas levantadas, garantindo assim a continuidade de uma comunidade que é intrínseca à tapeçaria histórica e espiritual da Terra Santa.
Fonte: https://folhagospel.com