Em um marco significativo para a Igreja da Inglaterra, a Reverenda Dame Sarah Mullally foi oficialmente empossada como a 106ª Arcebispa de Canterbury. A cerimônia histórica, realizada na Catedral de Canterbury, confere a Mullally o status de primeira mulher a ocupar o venerável cargo nos 1.400 anos de existência da instituição. Sua ascensão sinaliza o início formal de seu ministério público à frente da Igreja Anglicana na Inglaterra e como líder espiritual da Comunhão Anglicana global, que abrange aproximadamente 85 milhões de membros em cerca de 165 países.
Uma Cerimônia de Tradição e Renovação
A instalação, que ocorreu na Solenidade da Anunciação, reuniu uma congregação de cerca de 2.000 convidados. Entre as personalidades presentes estavam o Príncipe e a Princesa de Gales, além do Primeiro-Ministro Sir Keir Starmer. Lideranças cristãs de diversas denominações e tradições, tanto da Igreja da Inglaterra quanto da Comunhão Anglicana, também prestigiaram o evento.
Demonstrando uma conexão pessoal e homenagem à sua carreira anterior, a Arcebispa Mullally estendeu convites especiais a enfermeiras e cuidadores do NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido) que atuam em hospitais e hospícios. Um detalhe simbólico de sua posse foi o fecho de sua capa e mitra, confeccionado a partir da fivela do cinto que ela utilizava em seus tempos de enfermeira no NHS, sublinhando sua trajetória de serviço.
A temática da celebração centrou-se em 'Jesus como o Bom Pastor', mesclando rituais seculares com elementos contemporâneos. Durante a cerimônia, Mullally ocupou a histórica Cadeira de Santo Agostinho, um símbolo que remonta ao século VI, quando Santo Agostinho se tornou o primeiro Arcebispo de Canterbury. Pela primeira vez desde 1945, um exemplar moderno da Bíblia foi utilizado para o juramento, rompendo com uma tradição de quase 60 anos que empregava os frágeis 'Evangelhos de Agostinho', relíquia ligada ao primeiro arcebispo.
Desafios e Expectativas da Liderança
A nomeação de Mullally sucede o Arcebispo Justin Welby e ocorre em um período de consideráveis desafios para a Igreja da Inglaterra e para a Comunhão Anglicana global. As divisões internas em torno de questões como a sexualidade, debates sobre a ordenação feminina em algumas províncias, temas de salvaguarda (como os escândalos de abuso) e a queda na frequência às igrejas estão entre as pautas mais prementes. Adicionalmente, o movimento Gafcon, uma coalizão de províncias anglicanas mais conservadoras, manifestou um 'desengajamento principista' em relação à autoridade de Canterbury, não reconhecendo a liderança da nova Arcebispa.
Apesar desses obstáculos, os apoiadores de Dame Sarah a veem como uma líder conciliadora e experiente, capaz de oferecer uma gestão estável e estratégica. Sua jornada até a posse incluiu uma peregrinação de seis dias a pé de Londres até Canterbury, culminando em sua confirmação formal em janeiro, quando se tornou legalmente a Arcebispa.
Vozes da Comunidade e Visão Global
Em sua declaração pré-serviço, a Arcebispa Mullally expressou gratidão pelo apoio global e ressaltou a necessidade de 'amor, cura e esperança' no mundo atual, reafirmando o compromisso com a mensagem do Evangelho.
A diversidade da Comunhão Anglicana foi celebrada com uma oração proferida na língua Bemba, da Zâmbia, pelo Primaz da África Central, e a leitura do Evangelho em espanhol, pela Primaz interina da Igreja Anglicana do México. As músicas escolhidas pela Arcebispa Mullally para a celebração foram 'Tell Out My Soul' e 'Praise My Soul the King of Heaven'.
Dr. David Monteith, Deão de Canterbury, salientou a importância histórica do dia: 'A instalação de Sarah como nossa primeira Arcebispa teria sido quase inimaginável há 50 anos. Hoje importa.' Ele destacou as 'dádivas e experiências particulares' que a nova líder traz ao papel, expressando esperança e boas-vindas à diocese.