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Síria: berço do Cristianismo Vê 80% de sua população cristã Sumir em 14 anos

Igreja Tal Tawil atingida por bombardeios em 2015, quando o Estado Islâmico atacou aldeias assí...

A Síria, nação reverenciada como um dos berços históricos do Cristianismo, enfrenta uma crise demográfica e cultural de proporções alarmantes. Dados recentes revelam uma redução drástica de 80% em sua população cristã desde 2011, ano que marcou o início de um conflito devastador que redesenhou o panorama social e religioso do país. Essa diminuição representa não apenas uma perda numérica, mas o esfacelamento de uma presença que remonta a dois milênios, enraizada nas primeiras comunidades da fé. Cidades milenares, outrora pilares da difusão cristã e mencionadas no Novo Testamento, como Antioquia, testemunham agora o êxodo de seus fiéis. A continuidade dessa tradição milenar está ameaçada, com um patrimônio cultural e espiritual inestimável em risco de desaparecer, impactando profundamente a diversidade religiosa e a identidade histórica da nação. Hoje, restam entre 300 mil e 400 mil cristãos, predominantemente idosos, projetando um futuro incerto para essa comunidade resiliente.

O Declínio de uma Herança Milenar: Violência e Êxodo Forçado

A Perseguição e a Fragmentação Comunitária

O conflito sírio, que eclodiu em 2011, mergulhou o país em uma espiral de violência indiscriminada, contudo, a comunidade cristã parece ter sido desproporcionalmente afetada por atrocidades e perseguições. Bairros historicamente cristãos, como Midan em Aleppo, frequentemente se encontraram em linhas de frente de combate, tornando-os particularmente vulneráveis a ataques e destruição. Além da violência generalizada, grupos terroristas islâmicos, em particular, visaram minorias religiosas, incluindo os cristãos, impondo uma agenda de extremismo religioso. Relatos da cidade de Raqqa, por exemplo, sob o jugo do Estado Islâmico, descrevem um regime de terror caracterizado por tributações específicas impostas a cristãos, prisões arbitrárias, torturas sistemáticas e outras formas de abuso brutal. A memória do sequestro de 230 civis em Al-Qaryatayn em 2015, que incluía cerca de 60 cristãos siríacos, 45 mulheres e 19 crianças, ilustra a barbárie enfrentada. O patrimônio arquitetônico e cultural cristão também sofreu perdas irreparáveis, com inúmeros locais de culto danificados ou deliberadamente atacados, apagando vestígios materiais de uma história de fé.

Essa atmosfera de constante ameaça e a destruição da infraestrutura básica culminaram em um êxodo massivo. Impulsionado pela guerra civil, pela perseguição religiosa explícita, pelas sanções internacionais que estrangularam a economia, pelo serviço militar obrigatório imposto e, mais recentemente, pelo devastador terremoto de 2023, o deslocamento forçado tornou-se a única opção para muitos. Ataques direcionados a igrejas e sequestros por grupos extremistas agravaram a situação, fazendo com que vilarejos e cidades inteiras se esvaziassem de sua população cristã. Em Deir Ezzor, que antes da guerra abrigava 7 mil cristãos, restam hoje apenas quatro indivíduos em uma cidade 75% destruída. O regime de Bashar al-Assad, embora se apresentasse como protetor das minorias religiosas, falhou em conter o êxodo. A prolongada instabilidade, a repressão política e as sanções internacionais não só aprofundaram a crise econômica e social, mas também erodiram a esperança de segurança e liberdade religiosa, empurrando muitos para o refúgio em outros países. O conflito já ceifou mais de 520 mil vidas, gerou 7 milhões de refugiados e deslocou outros 6 milhões internamente, com dezenas de milhares ainda desaparecidos, demonstrando a escala da catástrofe humana.

Resistência, Apoio e Novos Desafios em um Cenário Pós-Conflito

A Rede de Apoio Comunitário e a Luta Pela Educação

Apesar da adversidade imposta por 14 anos de guerra, a comunidade cristã na Síria demonstra notável resiliência, atuando através de uma extensa rede de associações que beneficiam cerca de 2 milhões de pessoas, independentemente de sua filiação religiosa. No campo humanitário e social, essas organizações se dedicam ao apoio a pessoas com deficiência, à promoção da reconciliação e ao fornecimento de serviços essenciais. Muitos desses grupos foram formados durante a própria guerra, adaptando-se às necessidades emergentes e agindo como pilares de esperança em meio ao caos. Um exemplo notável é a parceria entre a Oeuvre d’Orient e o Hope Center Syria, que, em quatro hospitais cristãos localizados em Damasco e Aleppo, oferece atendimento a aproximadamente 117 mil sírios de diversas fés anualmente. Esses hospitais são amplamente reconhecidos pela qualidade e capacidade de serviço, sendo considerados alguns dos melhores do país, desempenhando um papel crucial na saúde pública síria.

A educação emerge como uma prioridade fundamental para a preservação e revitalização das comunidades cristãs. As Igrejas estão profundamente engajadas nesse setor, administrando 57 escolas que atendem a 30 mil alunos em todo o país. Essas instituições acolhem crianças de diferentes credos, promovendo não apenas o aprendizado acadêmico tradicional, mas também valores essenciais de paz, tolerância e coexistência. No entanto, o setor educacional enfrenta seus próprios desafios. Negociações estão em andamento para recuperar 30 das 67 escolas que foram confiscadas pelo Partido Baath, um obstáculo significativo para a expansão do acesso à educação cristã. A recuperação de escolas em áreas devastadas pela guerra, como Deir Ezzor e Suwayda, é vista como crucial para “reacender a atividade missionária” e “restabelecer conexões entre a pequena minoria cristã local e o restante da população”. Um relatório recente também alertou para sinais preocupantes de islamização e discriminação em materiais didáticos, propondo uma reinterpretação da história síria que remove referências a deuses pré-islâmicos, o que exige atenção e fundos internacionais para garantir a diversidade religiosa e a justiça educacional.

O Presente e o Futuro Incerto: Declínio Demográfico e Novos Horizontes Políticos

O legado da guerra continua a cobrar um preço pesado da comunidade cristã síria, que se vê às voltas com um declínio econômico e demográfico brutal. A perda de propriedades e terras, juntamente com o empobrecimento geral da nação, onde 90% da população vive abaixo da linha da pobreza, atingiu duramente os cristãos. O desaparecimento de 80% dessa comunidade milenar em apenas 14 anos é uma catástrofe histórica. Em cidades como Aleppo, apenas um sexto dos cristãos que residiam antes do conflito permanece. A demografia é particularmente preocupante: mais de 50% dos cristãos que permanecem têm mais de 50 anos, criando uma “pirâmide etária invertida” que ameaça a sustentabilidade da comunidade. Há uma escassez crítica de jovens, indicando um futuro sombrio para a continuidade geracional e a vitalidade da fé no país.

Em meio a esse cenário desafiador, a Síria busca um novo fôlego econômico com o fim de algumas sanções internacionais, mas as antigas divisões comunitárias e a instabilidade persistem após décadas de ditadura da família Assad e anos de guerra civil. A violência comunitária ressurgiu em março contra os alauítas no litoral e, mais notavelmente, em junho, com um ataque à igreja de Mar Elias contra os cristãos. Este último incidente é particularmente alarmante, pois, como destacado por observadores, “nunca durante a guerra uma igreja havia sido atacada durante a Missa”, uma brutalidade rara mesmo em um conflito tão longo, remetendo a ataques no Egito em 2016 e 2017, ou em Bagdá em 2010. Mais recentemente, a comunidade drusa também se tornou alvo de ataques, com populações deslocadas e problemas de segurança registrados em várias regiões. Há relatos de sequestros de mulheres alauítas por grupos isolados, com a suposta complacência das novas autoridades. Contudo, em um sinal de esperança tênue, existe um diálogo aberto entre as Igrejas e o presidente de transição em Damasco. Reuniões com o presidente Al-Sharh já permitiram que patriarcas e bispos expressassem suas preocupações e perspectivas. O futuro da presença cristã na Síria permanece incerto, mas a luta por sua sobrevivência e a preservação de sua rica herança continuam, dependendo de esforços contínuos e do reconhecimento internacional da urgência da situação.

Fonte: https://folhagospel.com

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