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Síria: Comunidade cristã Enfrenta Declínio sem Precedentes a Síria

Igreja Tal Tawil atingida por bombardeios em 2015, quando o Estado Islâmico atacou aldeias assí...

O Legado Milenar Ameaçado e a Crise Atual

Raízes Históricas do Cristianismo Sírio

A Síria detém um papel de importância seminal na história do cristianismo. Cidades como Antioquia, mencionada no Novo Testamento, foram verdadeiros polos irradiadores da fé, servindo como bases para as primeiras comunidades cristãs e para as expedições missionárias dos apóstolos, incluindo São Paulo. Essa profunda conexão histórica, forjada ao longo de milênios de coexistência pacífica e intercâmbio cultural, confere à presença cristã síria um valor inestimável e insubstituível. Contudo, a rica tapeçaria dessa herança milenar é cruelmente contrastada pela realidade atual. De uma população cristã que um dia foi robusta e influente, estima-se que restem hoje apenas entre 300 mil e 400 mil fiéis. Este contingente, alarmantemente pequeno, é predominantemente composto por idosos, um perfil demográfico invertido que alerta para a iminência de um desaparecimento. A perda não é apenas numérica; ela representa uma erosão da diversidade religiosa e uma cicatriz indelével no patrimônio histórico-cultural da Síria, com consequências que se estendem muito além das fronteiras confessionais, atingindo a própria identidade nacional.

A Escalada da Violência e a Perseguição Dirigida

A guerra civil síria, deflagrada em 2011, lançou o país em uma espiral de violência indiscriminada e sofrimento humano. Contudo, as comunidades cristãs, ao lado de outras minorias religiosas, foram desproporcionalmente atingidas. Bairros historicamente cristãos, como Midan em Aleppo, frequentemente se encontravam nas linhas de frente dos conflitos, tornando-se alvos especialmente vulneráveis e cenários de intensa destruição. O drama se aprofundou com a ascensão de grupos terroristas extremistas, notadamente o Estado Islâmico (ISIS), que impuseram um regime de terror caracterizado por perseguições religiosas sistemáticas. Em cidades como Raqqa, sob o controle do ISIS, os cristãos foram submetidos a práticas brutais: imposição de taxas discriminatórias (jizya), prisões arbitrárias, tortura e outros abusos desumanos que visavam erradicar sua presença. Relatos perturbadores, como o sequestro de 230 civis em Al-Qaryatayn em 2015, entre os quais cerca de 60 cristãos siríacos, incluindo mulheres e crianças, evidenciaram a vulnerabilidade extrema e a crueldade a que essas populações foram expostas. Além das vidas humanas, o vasto e milenar patrimônio cristão da Síria também foi alvo de destruição massiva. Locais de culto, igrejas e monastérios, alguns dos mais antigos do mundo e tesouros da humanidade, foram danificados, profanados ou deliberadamente visados e destruídos, apagando séculos de história, arte e fé.

Fatores do Êxodo e a Resposta da Fé

Causas Multifacetadas do Deslocamento em Massa

O êxodo em massa dos cristãos sírios é um fenômeno multifacetado, impulsionado por uma confluência de fatores interligados que tornaram a Síria um lugar insustentável para muitos de seus cidadãos. A guerra civil, que ceifou mais de 520 mil vidas e gerou milhões de refugiados e deslocados internos, permanece o catalisador primordial. Paralelamente, a perseguição religiosa sistemática por grupos extremistas, as sanções internacionais que estrangularam a já fragilizada economia síria, a imposição de um serviço militar obrigatório a jovens e, mais recentemente, o devastador terremoto de 2023, criaram uma tempestade perfeita de adversidades, forçando a população a buscar refúgio. Ataques diretos contra igrejas e sequestros por milícias extremistas apenas agravaram a sensação de insegurança e desespero que permeia o país. O caso de Deir Ezzor é um exemplo emblemático dessa catástrofe demográfica: de 7 mil cristãos que viviam na cidade antes de 2011, hoje restam apenas quatro, em uma localidade que se encontra 75% destruída. Embora o regime de Bashar al-Assad tenha se posicionado, historicamente, como protetor das minorias, a realidade no terreno demonstra que sua incapacidade de garantir segurança e estabilidade, somada à repressão política e às sanções internacionais, apenas exacerbou a crise econômica e social, impelindo muitos a buscar refúgio e uma nova vida fora de sua terra ancestral. A falta de garantias de segurança e liberdade religiosa em áreas controladas pelo Estado também contribuiu significativamente para o fluxo migratório, demonstrando a complexidade da situação.

A Resiliência e o Papel Humanitário das Igrejas

Em meio à devastação generalizada e ao êxodo implacável, a resiliência das comunidades cristãs sírias se manifesta através de uma vasta e crucial rede de apoio humanitário e social. Apesar da escassez de dados precisos em um país que emerge de catorze anos de guerra, estimativas das próprias comunidades indicam que aproximadamente 2 milhões de sírios, de diversas afiliações religiosas, são beneficiados por essas iniciativas. As organizações cristãs desempenham um papel vital no campo humanitário, oferecendo suporte essencial a pessoas com deficiência, promovendo a reconciliação em comunidades fragmentadas e fornecendo serviços básicos que o Estado não consegue suprir. Muitos desses grupos emergiram e se fortaleceram justamente durante os anos mais sombrios do conflito, demonstrando uma notável capacidade de adaptação, serviço e compaixão. A qualidade da assistência é um destaque: quatro hospitais cristãos em Damasco e Aleppo, por exemplo, atendem anualmente cerca de 117 mil pessoas de diferentes credos, sendo amplamente reconhecidos pela excelência de seus serviços e pela ética humanitária que os guia. A educação é outra prioridade fundamental. As Igrejas estão profundamente engajadas no setor, administrando 57 escolas que educam 30 mil alunos em todo o país. Estas instituições não apenas oferecem ensino tradicional de qualidade, mas também promovem ativamente valores de paz, tolerância e coexistência entre crianças de diversas religiões, fomentando um ambiente de mútuo respeito. Esforços estão em andamento para recuperar 30 das 67 escolas que foram confiscadas durante o conflito. A restauração de unidades educacionais em áreas devastadas, como Deir Ezzor e Suwayda, é vista como essencial para reacender a atividade missionária e restabelecer laços vitais entre a pequena minoria cristã local e a população em geral. No entanto, preocupações crescem em relação a sinais de islamização e discriminação em materiais escolares, sublinhando a necessidade urgente de mecanismos de justiça e fundos internacionais para salvaguardar a diversidade religiosa no currículo sírio. Um decreto ministerial que reinterpreta a história síria, removendo menções a deuses pré-islâmicos, exemplifica essa crescente preocupação com a homogeneização cultural e religiosa.

Desafios Persistentes e o Futuro Incerto da Fé

A comunidade cristã na Síria continua a pagar um preço exorbitante pela prolongada guerra e pela instabilidade crônica. A perda de propriedades e terras, combinada com um declínio social e econômico acentuado, atinge profundamente seus membros. Atualmente, chocantes 90% da população síria vive abaixo da linha da pobreza, e os cristãos, em sua maioria, estão inseridos nesse contexto de empobrecimento generalizado. O declínio demográfico é brutal e incontestável: aproximadamente 80% da comunidade que existia há dois milênios desapareceu em apenas quatorze anos de conflito. Em cidades outrora vibrantes como Aleppo, apenas um sexto dos cristãos que lá viviam antes do conflito permanece. A pirâmide etária da comunidade está invertida, com mais de 50% dos membros acima dos 50 anos, e um declínio acentuado no número de jovens, ameaçando seriamente a continuidade da fé para as futuras gerações. Os primeiros meses sob as novas autoridades sírias, embora tenham trazido um leve fôlego econômico com o fim de algumas sanções, viram o ressurgimento de antigas divisões e novas tensões. A violência comunitária irrompeu em março contra os alauítas no litoral e, em junho, contra os cristãos, com um ataque sem precedentes à igreja de Mar Elias durante a Missa – um evento de rara e chocante gravidade, que nem mesmo nos piores anos da guerra havia ocorrido dessa forma. Mais recentemente, a comunidade drusa também se tornou alvo, e relatos de sequestros de mulheres alauítas, com aparente conivência das autoridades, sinalizam uma escalada de tensões e insegurança em várias regiões do país. Contudo, em meio a esse cenário desafiador e repleto de incertezas, há um diálogo aberto em andamento entre as Igrejas e o presidente de transição em Damasco. Patriarcas e bispos têm apresentado suas perspectivas sobre os desafios e as oportunidades para a comunidade, buscando garantir um espaço para a diversidade. Embora o caminho para a estabilidade e a preservação da diversidade religiosa seja incerto e árduo, esses diálogos representam uma tênue, porém crucial, esperança de que a Síria, berço de civilizações e de fé, possa um dia restaurar a plenitude de sua rica tapeçaria social e religiosa, garantindo um futuro para sua milenar comunidade cristã e para todas as suas minorias.

Fonte: https://portalimpactogospel.com.br

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